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O rigor dos procedimentos da União Ciclista Internacional (UCI), no que respeita ao controlo de doping, não foi igual para todas as equipas que participaram na Volta à França deste ano. Um relatório da Agência Francesa de Luta contra a Dopagem (AFLF), citado pelos jornais ‘Le Monde’ e ‘Le Figaro’, revela várias situações em que a Astana, equipa do vencedor, Alberto Contador, do terceiro classificado, Lance Armstrong, e do português Sérgio Paulinho, beneficiou de um tratamento de favor.
A UCI já negou as alegações, considerando “totalmente inaceitável e maneira de proceder de Pierre Bordry [presidente da AFLD] e dos seus colaboradores, ao redigirem e publicarem um relatório unilateral, quando a UCI e a AFLD tinham elaborado um programa conjunto de controlos para o Tour”.
Nos últimos anos, o Tour foi sempre ‘assaltado’ com polémicas relacionadas com doping, chegando a envolver líderes de classificações, até mesmo vencedores da camisola amarela e da de melhor trepador. Em 2009, a prova terminou de forma inédita sem controlos positivos ou escândalos, mas as dúvidas sobre o que levou a esse resultado aumentam.
Retenção de informação
De acordo com o relatório que a AFLD enviou ontem para a Agência Mundial Antidopagem (AMA), a UCI, aos organizadores e às autoridades francesas, feito a partir dos apontamentos diários detalhados dos dois médicos que agência destacou para colaborarem nos controlos e das suas escoltas, os problemas começaram no período de preparação para a Volta à França. A UCI transmitiu à AFLD os planos de treino das equipas inscritas, de modo a delegar os controlos pré-competição, mas não o fez no caso da Astana, tendo havido uma “retenção de informação”.
O mesmo aconteceu em relação aos dados dos passaportes biológicos, que não foram cedidos à AFLD ou à AMA, mesmo que o projecto beneficie do co-financiamento do Estado francês e que esses registos ajudem a visar em especial os ciclistas com registos anormais.
Controlos tardios e com atrasos
O relatório diz que à Astana estavam destinados “sempre os controlos mais tardios da manhã, com atrasos dos ciclistas em se apresentarem aos oficiais”. E dá um exemplo concreto: no dia 11 de Julho, quando a brigada antidopagem se deslocou ao hotel da equipa, a obrigatoriedade de os corredores se apresentarem de imediato não foi cumprida, tendo chegado apenas 45 minutos depois e os oficiais da UCI dispensaram as escoltas da AFLD, tudo feito sem a presença dos dois médicos da agência, apesar de obrigatória.
“Uma tal tolerância aceite sem qualquer justificação verificável (...) não permite assegurar, na ausência de escoltas, a perfeita regularidade dos procedimentos, nomeadamente que não tenha ocorrido algum tipo de manipulação” do controlo, alerta a agência francesa. Ou seja, segundo descrevem os dois jornais francesa, o carácter surpresa nos controlos inopinados não existiu para certas equipas.
Possibilidade de manipulação foi criada também pelo facto de os oficiais da UCI anunciarem os nomes dos ciclistas designados para os controlos no final etapas 30 minutos antes da chegada prevista. Em média, os ciclistas vencedores das etapas e os líderes das várias contagens apresentavam-se ao controlo antidopagem cerca de hora a hora e meia depois de chegarem. Os inspectores da UCI também não respeitaram a confidencialidade dos controlos, pois houve casos em que informaram os corredores convocando-os em voz alta quando estes se encontravam em espaços de refeição dos hotéis com terceiras pessoas.
Amostras mal conservadas, controlos mal classificados
Mas, se houve uma atitude de favor em relação à Astana, esta está enquadrada num comportamento geral de falta de rigor por parte da UCI, denuncia o relatório. Um desses casos foi a conservação das amostras, que eram guardadas em cofres de veículos estacionados ao sol, antes de serem transportadas para o laboratório sem qualquer protecção. Além disso, a UCI nunca disponibilizou aparelhos de refrigeração que permitissem conservar as amostras de sangue e urina a temperaturas abaixo dos quatro graus centígrados.
Falhas que aceleram a degradação das amostras e dificultam a detecção de eventuais dopantes por parte dos laboratórios. Erros agravados pelo facto de a UCI classificar os testes feitos no hotéis das equipas como controlos fora de competição, o que reduz a lista de substâncias proibidas a serem despistadas pelos laboratórios. Mesmo que algum corredor tenha consumido um estimulante ou um glucocorticosteróides, que poderia ter efeito na etapa do dia seguinte, este não seria detectado porque a UCI tinha classificado o controlo como fora de competição.
UCI rejeita alegações
Além de criticar o aproveitamento mediático deste relatório, a UCI insiste que não favoreceu a Astana. “Após dúvidas já expressas pela AFLD, a UCI abriu uma investigação à forma como foi tratada a Astana e concluiu que esta equipa não foi favorecida”, vincou o organismo em comunicado, anunciando que está “a ponderar optar por colaborar com um parceiro neutral em território francês. Tal opção já está a ser implementada por outras federações internacionais”.
A Astana também já reagiu ao relatório, garantindo que sempre cumpriu o que os oficiais pediram e realçando que, se há dúvidas sobre o comportamento destes, é com eles que o assunto deve ser tratado.
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