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Em entrevista a site português, Contador desvaloriza a polémica com Armstrong, mantém a aposta no Tour e diz que a proibição dos auriculares traz "incerteza"
Há anos que o conhecemos e ainda assim ficámos surpreendidos. Foi um Alberto Contador intimista, mais homem e menos ciclista vencedor do Tour, Giro e Vuelta, que se encontrou com os jornalistas para fazer a antevisão de uma época que, para o madrileno, começou da melhor maneira possível, com a vitória na Volta ao Algarve.
PÚBLICO - O Lance Armstrong diz que a vossa rivalidade é boa para o ciclismo. Pensa o mesmo?
CONTADOR - Depende. Do ponto de vista mediático, o que se passou no Tour foi muito importante para a modalidade e, nesse sentido, foi positivo. Do ponto de vista da polémica, não. Preferiria não ter tido que lidar com ela, estando nós na mesma equipa. Foi um processo crescente, que passou por imensas fases. Se vinha [para a Astana], se não vinha, se eu saía da equipa... A verdade é que foi uma quantidade de episódios que me desagradaram. Foi uma história que deu muito gozo aos meios de comunicação. Há coisas que foram publicadas que eu não gostei de ler, mas é uma situação que entendo.
A polémica ganhou outra proporção por culpa de Armstrong?
(Risos) Não é uma questão de ter ou não ter culpa. Foi algo do género: "A história está aí e agora façam o que quiserem com ela".
Nomes míticos, como Indurain ou o próprio Armstrong, tiveram, durante anos, verdadeiras fortalezas traçadas à sua imagem. Mas o Contador parece ter dificuldade em construir uma "casa" sólida...
Se calhar, quando estiver tranquilo e tiver uma equipa completamente dedicada a mim, não serei capaz de obter os mesmos resultados. De momento, não me queixo...
E esta nova Astana dá-lhe garantias de tranquilidade?
A equipa não mudou, o que mudou foi a motivação dos ciclistas, a dedicação. E isso vê-se em simples detalhes, como por exemplo aqui, na Volta ao Algarve, em que "discutem" entre si para ir buscar água, para puxar na frente do pelotão. O Martinelli [director desportivo] fez um excelente trabalho na união do grupo. Tê-lo no carro de apoio é um luxo, pois, além de ter dirigido grandes campeões, é alguém com quem estabeleci uma relação de confiança mútua. Seremos uma boa dupla.
Falou-se muito da sua saída...
No princípio, tive muitas solicitações e tentei a todo o custo mudar de equipa, mas a minha situação contratual era bastante complicada. A Astana fez um forcing para me oferecer um projecto que me convencesse e eu aceitei. De momento, estou muito contente.
A transição dos principais nomes da Astana para a Radio Schack enfraqueceu a equipa ao ponto de condicionar o seu desempenho no Tour?
Não. Nesse sentido não, porque há gente aqui com muito valor, muitos ciclistas ainda se mantêm em relação ao ano passado. Claro que vamos sentir falta dos que saíram, porque eram pessoas muito profissionais e de muita qualidade, mas não vão ser as saídas a influenciar a decisão do Tour.
Quem será o seu principal adversário?
Terei muitos. Vai ser um Tour muito aberto, com oito a dez ciclistas capazes de vencer a geral. O factor táctico e a estratégia vão influenciar o resultado de uns, as qualidades físicas terão um papel decisivo para outros. Há a Radio Shack com o Leipheimer, que é um corredor muito combativo e que nos contra-relógios é intenso, o Klöden [pausa]... e o Armstrong. Tenho mais medo da equipa do que dele. E depois há outros que estão a apostar muito nessa prova, como Wiggins, como o Evans, a liderar uma formação nova [a BMC]. Jovens como Nibali, Kreuziger, Gesink, e veteranos como Sastre e Valverde. São muitos os que têm pretensões de estar na discussão, pelo que não poderia seleccionar só um. Ainda assim, numa luta na montanha, aquele que tenho mais curiosidade de ver é o Andy Schleck, que foi o adversário que mais me exigiu nas etapas de montanha.
O Alberto aparece no Algarve após sete meses sem competir. Não é uma pausa demasiado prolongada para alguém que gosta tanto de correr?
Bem... pode dizer-se que sim. Depende do ano e das circunstâncias que motivam uma pausa tão grande. O ano passado, como a maioria de vocês sabe, foi um ano diferente, complicado. Depois do Tour, senti que tinha de clarificar o meu futuro, não sabia como ia ser 2010. Mas, desde logo, gosto de correr mais. Não planeio estar parado tanto tempo todos os anos. Preciso de ajustar o plano às circunstâncias e à equipa em que esteja nesse momento.
Como vê a decisão da UCI de banir os auriculares, para incentivar o ciclismo de ataque?
As comunicações não são unicamente para dar indicações do género "agora puxas tu, agora puxas tu". Para isso estamos nós, os ciclistas, que organizamos o funcionamento da equipa dentro da corrida. E há situações de corrida, como um furo, uma avaria, uma queda. Imagine uma ambulância em sentido contrário na corrida, coisas desse tipo. Somos avisados pelo rádio para termos cuidado. Há que analisar todos os aspectos para perceber se está a funcionar ou não.
Mas pode ser benéfico?
Eu considero-me um corredor de ataque, mesmo com as comunicações. O que haverá, com certeza, é mais incerteza.
Ricardo Riccó disse numa entrevista recente que era da natureza humana querer vencer, ser o mais forte e ganhar muito dinheiro, e por isso se tinha dopado. Concorda com ele?
Não, não, não. Tens sempre de te perguntar "à custa de quê?".
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